quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ícones do Cinema no Cineclube Araucária - Marilyn Monroe


Ao se referir ao mito imposto no cinema pela figura de Greta Garbo, Paulo Emílio Salles Gomes disse que “(…) podemos admitir que no teatro o ator passa e a personagem permanece, ao passo que no cinema sucede exatamente o inverso. Nas sucessivas encarnações através de inúmeros atores, permanece a personagem de Hamlet, enquanto no cinema quem permanece através das diversas personagens que interpreta é Greta Garbo. (…) O que persiste não é propriamente o ator ou a atriz, mas essa personagem de ficção cujas raízes sociológicas são muito mais poderosas do que a pura emanação dramática.” O mesmo pode ser colocado com relação ao que se estabeleceu com Marilyn Monroe, de forma ainda mais complexa que com relação à Garbo, já que Marilyn, além de ser a atriz que interpretava as personagens, era também a personagem principal que Norma Jean Baker interpretou por 16 anos, dos primeiros pequenos trabalhos até o fim turbulento, em 5 de agosto de 1962, quando já era considerada a maior das estrelas do cinema.

Marilyn Monroe se referia a ela mesma, no final de sua vida, em terceira pessoa, numa espécie de consciência de sua própria condição de mito e que sabia que não era capaz de sustentar a própria presença. Fazia tempo que a estrela era viciada em calmantes, combustível necessário que a auxiliavam a manter a força na subida rumo ao topo. E Monroe atingiu o topo, que era justamente o que sempre sonhou. Ela queria ser a mulher mais conhecida, mais desejada do mundo, e sua figura platinada e curvas voluptuosas lhe deram o status almejado ainda mais rápido que imaginava. Em 1950, Monroe fez pequenas participações em dois filmes importantes, O Segredo das Jóias, de John Huston, e A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz, este no papel de uma jovem admiradora de Margo Channing, interpretada magistralmente por Bette Davis, que mesmo ela não ofuscou a aparição de Monroe. Notada por vários, a atriz começou a erguer sua carreira para logo passar para os papéis principais e ser elevada à condição de diva. Monroe trabalhou com os melhores diretores, de Otto Preminger (O Rio das Almas Perdidas) a Jean Negulesco (Como Agarrar Um Milionário), dando cada vez mais importância à sua figura de símbolo sexual. Com alguns deles ela estabeleceu uma parceria mais constante, como com Howard Hawks, com quem fez O Inventor da Mocidade e Os Homens Preferem as Loiras, que tem uma das cenas mais icônicas que Marilyn Monroe fez, usando um vestido rosa, cercada de homens que estão dispostos a dar tudo para ela, inclusive os diamantes mais caros do mundo. Mas foi em O Pecado Mora Ao Lado, primeiro de seus filmes com Billy Wilder, que Marilyn fez sua cena símbolo: passando pela calçada junto do homem que a deseja mais que tudo e tenta resistir à tentação, a personagem de Monroe é surpreendida pelo vento da calefação do metrô, que levanta seu vestido branco revelando suas pernas – e outras partes – sem que ela consiga controlar. Não somente é a principal memória que se tem de Marilyn, como é um dos momentos mais celebrados na história do próprio cinema.

Marilyn Monroe iria retornar a trabalhar com Billy Wilder em Quanto Mais Quente Melhor, mas como acontecia com quase todos com quem trabalhava, Marilyn tirava Wilder do sério, irritando o diretor com atrasos, falta de concentração e dificuldade em decorar as falas. Mas Wilder sabia que Marilyn era a figura necessária para dar vida à doce e sexual Sugar Kane, e soube manipular a atriz a fim de extrair dela o resultado esperado. Com isso, Quanto Mais Quente Melhor passou a ser considerada a comédia mais engraçada de todos os tempos e Marilyn Monroe levou o prêmio de melhor atriz de comédia, no Globo de Ouro de 1960, sendo preterida sob protestos a uma indicação ao Oscar. Marilyn queria ser a maior das estrelas, mas passou a trabalhar para ser uma boa atriz também. Fez aulas com Lee Strasberg, no famoso Actors Studio em Nova York e teve Paula Strasberg como mentora nos últimos trabalhos que fez, sendo incapaz de dar um passo sequer sem a autorização de Paula (que era odiada nos sets de filmagem). Desse modo e com as confusões emocionais derivadas de seus divórcios, um de Joe DiMaggio (o maior dos jogadores de baseball), outro de Arthur Miller (o maior dos dramaturgos americanos), Marilyn tinha sua vida controlada por Paula Strasberg, nos filmes, por sua agente e por seus médicos. A atriz já havia se afastado do cinema por 1 ano, devido a seu estado emocional, depois de fazer Os Desajustados, segundo filme com John Huston e último inteiramente concluído, quando foi incentivada a estrelar Something’s Got To Give, de George Cukor, que ficou inacabado depois de Monroe ter sido demitida devido aos sucessivos atrasos e desculpas de doença para não aparecer para filmar.
 
O caos emocional tomou conta de Marilyn que, mesmo tentando retomar as gravações do filme de Cukor e deixar de lado a imagem que circulava na mídia de que era uma tola, não conseguia se manter estável por muito tempo e acabou tendo uma overdose de calmantes, poucos dias depois da decisão do estúdio de continuar com a produção do filme. O legado de Marilyn Monroe residiu em sua imagem intocada de maior símbolo sexual do cinema em todos os tempos, não manchada pelas confusões de sua vida pessoal.

"Há uma certa semelhança entre Marilyn e a II Guerra Mundial: ambas foram infernais, mas valeram a pena”. Billy Wilder

Thiago Macêdo Correia

Um comentário:

  1. texto bom e bem articulado. poderia ter acrescentado que, entre os bons diretores com que marilyn trabalhou, está fritz lang, em clash by night ou só as mulheres pecam, de 1950 salvo engano.

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