terça-feira, 26 de novembro de 2013

EM NOVEMBRO O CINE LITERATURA LEMBRA OS 60 ANOS SEM GRAÇA


No dia 30 de novembro, o Cine Literatura presta homenagem ao escritor alagoano Graciliano Ramos, morto em 1953, sobre quem certa vez declarou Jorge Amado: "Ante a justeza, a correção da língua portuguesa por ele escrita, nós, os outros ficcionistas do Nordeste, somos uns bárbaros". Faz, pois, 60 anos que partiu o Velho Graça, como o tratavam carinhosamente os colegas, testemunhas da curiosa trajetória literária de quem se pusera entre os poucos nomes, da sua geração, com a grandeza e a importância de Machado de Assis. Se dele tivéssemos recebido apenas "Vidas Secas" já estaríamos no lucro. Mas, vieram também, entre outros, "Angústia", "Caetés", "São Bernardo", "Memórias de um Negro", "Viagem", "Linhas Tortas", "Viventes das Alagoas", "Garranchos", "Minsk", "A Terra dos Meninos Pelados", "Histórias de Alexandre", "O Estribo de Prata", "Dois Dedos", "Brandão entre o Mar e o Amor" e "Memórias do Cárcere", o mais importante relato que já se produziu sobre o violento Estado Novo de Getúlio Vargas, além das "Cartas de Amor a Heloísa", publicadas apenas no começo da década de oitenta e a tradução  de "A Peste", um dos mais conhecidos romances de Albert Camus. Homem digno e autêntico, coerente até nas contradições, é o que foi Graciliano Ramos, cidadão que, apesar de se dizer ateu, tinha a Bíblia como leitura predileta e que detestava vizinhos mas adorava crianças. Confessava-se indiferente à música e à academia e esperava morrer aos 57 anos de idade. Viveu mais três, para legar ao Brasil e ao povo brasileiro, como disse Nelson Werneck Sodré, “um dos mais altos exemplos de honestidade literária que nos foi dado conhecer”. 

Três dos seus livros foram levados para as telas dos cinemas: "Vidas Secas", "São Bernardo" e "Memórias do Cárcere". Este último, adaptado e dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1984, está na pauta do Cine Literatura do Cineclube Araucária no dia 30 deste mês de novembro. "Memórias do Cárcere" conta a experiência vivida por Graciliano Ramos após ser preso em Alagoas e conduzido a Ilha Grande no Rio de Janeiro, suspeito de colaborar com a Aliança Nacional Libertadora, organização criada  em 1935 com o objetivo de lutar contra a influência fascista dos primeiros anos da ditadura Vargas que nesse período flertava com o nazismo alemão de Adolf Hitler. Para o diretor Nelson Pereira dos Santos, o cárcere é uma metáfora da sociedade brasileira. No espaço exíguo da prisão a dinâmica de cada um é mais clara: a classe média militar, o jovem, a mulher, o negro, o nordestino, o sulista; o encontro com o prisioneiro comum, o assaltante, o homossexual. Graciliano retratou tudo isso lutando contra os próprios preconceitos e conseguiu nos deixar um testemunho generoso, aberto. A cadeia no sentido mais amplo, a cadeia das relações sociais e políticas que aprisionam o povo brasileiro.




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