sábado, 15 de fevereiro de 2014

O primeiro filme de Charlie Chaplin – Making a Living – foi mostrado ao público há exatos cem anos – essa emoção se repete na abertura da temporada 2014 do Cineclube Araucária

No dia 22 de fevereiro, o Cineclube Araucária abre a temporada 2014 de bons filmes em Campos do Jordão com uma programação que homenageia os 100 anos do cinema criado por um dos seus maiores gênios: Sir Charles Spencer Chaplin ou simplesmente Charlie Chaplin, ou ainda Charlot ou Carlitos como o conhecemos no Brasil. Chaplin estreou como ator de cinema em Making a living, de Henry Lehrman, curta metragem de 13 minutos, lançado nos Estado Unidos há exatos 100 anos, no dia 2 de fevereiro de 1914. Chaplin tinha então 24 anos e ainda não havia criado o visual que o imortalizou. Mas, como costumava acontecer na época, Making a living – traduzido no Brasil para Carlitos Repórter – se caracteriza por muita correria em uma sequência de situações engraçadas. A produção é modesta, assim como todos as outras feitas durante o tempo em que trabalhou para a Keystone Film Company, detentora do seu primeiro contrato artístico. No filme, Chaplin faz um vigarista que aceita um emprego como repórter. Ao presenciar um acidente, ele pega a câmera de outro repórter e corre para o jornal a fim de entregar as fotos como suas. Com a exibição dessa verdadeira relíquia na sede da AMECampos (Rua Dr. Reid nº 68, no sábado – dia 22/02 – às 20h00), seguida do clássico Tempos Modernos, o Cineclube Araucária dará por aberta a sua programação deste ano.



Carlitos Repórter serviu para que ele chegasse a seu famoso personagem, o vagabundo, pois sua primeira aparição ocorreu logo no segundo filme, Kid Auto Races in Venice (Corrida de Automóveis). A produção dos filmes curtos e mudos da época era realmente industrial. Só em 1914, Chaplin participou de 35 filmes, tendo sido roteirista e diretor de 21 deles. Em vários, foi o vagabundo, em outros, fez diversos personagens, quase sempre cômicos.

Cena de Making a Living (Carlitos Repórter) - primeiro filme de Charles Chaplin lançado em fevereiro de 1914
Chaplin nasceu em 1889 em Londres. Sempre sentiu-se atraído pelo music hall o que o levou a trabalhar como ator numa excursão pelos EUA com a trupe de Fred Karno quando, no final de 1913, foi notado por Mack Sennett, que o contratou para seu estúdio, a citada Keystone. Inicialmente, ele teve dificuldades para se adaptar ao cinema. Quando viu Carlitos Repórter, Sennett pensou que cometera um erro ao contratá-lo. Foi Mabel Normand — atriz e comediante da Keystone — que o convenceu a dar a Chaplin uma segunda chance. Ela, aliás, escreveu e dirigiu vários de seus primeiros filmes. Só que Chaplin detestava ser dirigido por mulheres e as discussões entre os dois eram frequentes. Por outro lado, os filmes faziam tanto sucesso que ele se tornara uma das maiores estrelas do estúdio. O esquema das produções era sempre o mesmo: ou seja, o mais desbragado pastelão.

Porém, em 1915, Chaplin assinou um contrato mais vantajoso com a Essanay Studios. Seus filmes ficaram mais autorais, já com a pitada de sentimentalismo que o caracterizaria. Ali, Chaplin também passou a manter um elenco fixo, no qual estavam a heroína Edna Purviance e os vilões cômicos Leo White e Bud Jamison.

Como os EUA dos anos 10 eram uma Torre de Babel com imigrantes chegando de todas as partes do planeta, os filmes mudos de Chaplin atravessavam as barreiras de linguagem, sendo compreendidos por todos. Nesse contexto, ele se tornou uma celebridade, passando a almejar o controle total sobre sua produção. Em 1916, a Mutual Film Corporation pagou a ele 670 mil dólares para produzir uma dúzia de comédias durante o período de dezoito meses. Um exemplo da nova fase é o clássico Easy Street.

Em 1917, Chaplin migrou novamente, assinando um contrato com a First National para produzir oito filmes. Além de manter a autonomia conquistada, a empresa financiaria e distribuiria os filmes, além de lhe dar mais tempo para trabalhar. Concentrando-se na qualidade, construiu seu próprio estúdio em Hollywood e expandiu alguns de seus projetos para longas metragens. Foi quando, em 1921, produziu a sua primeira comédia dramática, The Kid (O Garoto), filme que garantiu status de estrela das telas ao ator mirim Jackie Coogan. Na sequência, o inquieto Charlie Chaplin, não querendo mais depender do financiamento e da distribuição de empresas externas, fundou a United Artists com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith. Até o início da década de 1950, todos os longas de Chaplin foram distribuídos pela United Artists. As obras primas vinham em série, como Em Busca do Ouro (1925) e O Circo (1928).

Apesar do cinema falado ter se tornado o modelo dominante no final da década de 20, Chaplin ainda resistiu até 1940. Durante o avanço dos filmes sonoros, produziu Luzes da Cidade (1931) e Tempos Modernos (1936). Esses filmes ainda eram mudos, ou talvez falsamente mudos, pois possuíam música sincronizada e efeitos sonoros.




Tempos Modernos contém falas provenientes de objetos inanimados, como rádios ou monitores de TV. Isto foi feito para agradar o público da década de 1930, que já havia perdido o hábito de assistir a filmes mudos. Além disso, Tempos Modernos foi o primeiro filme em que a voz de Chaplin é ouvida (no final do filme, na canção Smile, composta e cantada pelo próprio em dueto com Paulette Goddard). No entanto, a maioria dos espectadores o considerou um filme mudo que marcava o fim de uma era.

O primeiro filme falado de Chaplin, O Grande Ditador (1940), foi um libelo contra o ditador alemão Adolf Hitler e o nazismo. Seu lançamento ocorreu um ano antes dos Estados Unidos abandonarem sua política de neutralidade para entrar na Segunda Guerra Mundial. Chaplin interpretou o papel de Adenoid Hynkel, ditador da fictícia Tomânia. O personagem era claramente baseado em Hitler e Chaplin, atuando em um papel duplo, também fazia o papel de um barbeiro judeu perseguido por nazistas. O filme contou com a participação de Paulette Goddard no papel de uma mulher judia do gueto e de Jack Oakie no papel de Benzino Napaloni, ditador de “Bactéria”: uma sátira ao ditador italiano Benito Mussolini e ao fascismo de um modo geral. Dentro do ambiente político da época, o filme foi visto como um ato de coragem, tanto por seu ataque ao nazismo quanto pela clara representação de personagens judeus perseguidos de forma violenta. O Grande Ditador foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Ator (Chaplin), Melhor Ator Coadjuvante (Oakie), Melhor Trilha Sonora (Meredith Willson) e Melhor Roteiro Original (Chaplin).

Fora das telas, Chaplin fez parte do glorioso grupo de humanistas democratas da primeira metade do século XX, gente cujas opiniões eram ouvidas e consideradas como se fossem reservas morais da sociedade. Apesar de ser batizado pela Igreja da Inglaterra, Chaplin sempre se declarou ateu. Durante o período nazista, houve grande controvérsia a respeito de sua suposta ascendência judaica. Propagandas nazistas da década de 40 o retratavam como judeu. Investigações do FBI no final da década de 1940 também se concentraram nas suas origens étnicas. Mas não há documentos comprobatórios e, durante toda sua vida pública, Chaplin se recusou a tocar no assunto.

Em todo caso, o posicionamento político de Chaplin sempre foi de esquerda. Durante a era macarthista, foi acusado de “participar de atividades antiamericanas” e de ser comunista. J. Edgar Hoover instruíra o FBI a mantê-lo sob observação. A pressão do FBI para que Chaplin saísse dos EUA alcançou nível crítico no final da década de 1940, após o lançamento de Monsieur Verdoux (1947), considerado uma afronta ao sistema capitalista. O filme foi mal recebido e boicotado em várias cidades dos EUA, obtendo maior êxito na Europa, especialmente na França. Naquela época, o Congresso cogitou chamá-lo para um interrogatório público, fato que não se concretizou, provavelmente devido à possibilidade de Chaplin satirizar os investigadores através de seus personagens na tela.


Cena de Monsieur Verdou - 1947
Os últimos filmes de Chaplin foram produzidos em Londres: A King in New York (1957) e A Countess from Hong Kong (1967), estrelado por Sophia Loren e Marlon Brando, no qual Chaplin faz uma ponta no papel de mordono - sua última aparição nas telas. Ele também compôs as trilhas para esses dois filmes, que inclui a canção tema de A Condessa de Hong Kong - "this is my song" - cantada por Petula Clark e que se tornou a canção mais executada no Reino Unido na época do lançamento do filme.

Em seus últimos anos, juntamente com James Eric, Chaplin compôs músicas originais para seus filmes mudos e depois os relançou. Compôs a música de seus outros curtas metragens produzidos pela First National: The Idle Class em 1971, Pay Day em 1972, A Day’s Pleasure em 1973, Sunnyside em 1974, e dos longa-metragens The Circus em 1969 e The Kid em 1971. O último trabalho de Chaplin foi a trilha sonora para o filme A Woman of Paris (1923), concluída em 1976, época em que Chaplin já estava com a saúde bastante debilitada e com alguma dificuldade de comunicação.