Naquele tempo, o antigo cinema já mantinha uma agenda movimentada de eventos. Palestras, espetáculos de dança, música e teatro, encontros de idosos e outras ações agitavam o espaço, reconhecido como um dos principais polos culturais do município. Construído em 1942 para ser o Cine Glória, o prédio — central e de arquitetura característica da época da inauguração — sempre foi referência histórica e símbolo da identidade local.
O problema era a tela.
Em 2015, um edital do Governo do Estado voltado ao audiovisual contemplou iniciativas geradas no seio da sociedade civil. Entre os premiados, o Cineclube Araucária, de Campos do Jordão. Com o recurso em mãos, a entidade procurou a Prefeitura e apresentou uma proposta incomum: investir parte do prêmio recebido na melhoria do próprio Espaço Cultural.
Assim foi feito. Graças a essa iniciativa, a antiga tela deu lugar a um equipamento moderno, eletrônico, acionado por controle remoto. Um novo projetor digital também foi adquirido. No andar superior, com assessoria da arquiteta Fabiana Muniz, foram implantados o Memorial do Cine Glória e a Biblioteca de Cinema. O espaço reformado passou a se chamar Complexo Cultural Edmundo Ferreira da Rocha, em homenagem ao célebre historiador jordanense.
Ao longo de quinze anos, o Cineclube Araucária fez muito mais do que “trazer de volta o cinema” à cidade, como dizia seu antigo slogan. Desde 2011, a entidade promove oficinas para crianças, jovens, adultos e idosos, além de exposições, mostras e encontros.
As mostras marcaram época: cinema indiano, chinês, iraniano, japonês, latino-americano, do Leste Europeu, documentários brasileiros, clássicos italianos, animações e sessões infantis — sempre gratuitas e abertas ao público – mais do que movimentaram a agenda cultural: essas iniciativas consolidaram uma presença contínua da sétima arte no coração da histórica Vila Abernéssia.
Ainda em 2015, já com nova estrutura, o Cineclube realizou a primeira edição do Festival Curta Campos do Jordão. De lá para cá, o evento cresceu, ganhou projeção nacional e passou a inserir o nome da cidade no circuito dos festivais cinematográficos brasileiros.
O impacto também se refletiu na produção local. Estimulados pelas oficinas e com acompanhamento e orientação do Cineclube, moradores passaram a produzir seus próprios filmes. Títulos como “Grão”, “Pedro e o Livro”, “Dias de Glória”, “A Redenção de Lúcio” e “Apenas Mais uma Consulta”, entre outros, circularam pelo Espaço Cultural e por festivais em diversas regiões do país.
Ao longo dos anos, o evento homenageou nomes importantes da cultura brasileira, como Clarice Abujamra, Alaíde Costa, Helena Ignez, Lucélia Santos e Jeferson De. Artistas que fizeram — e seguem fazendo — da arte seu caminho e destinação estiveram em Campos do Jordão para compartilhar experiências e fortalecer vínculos, abraçando colegas e público.
Muita coisa mudou nesse período. O Espaço Cultural foi reformado e modernizado. As políticas públicas de incentivo fortaleceram o festival. Crianças que assistiram às primeiras sessões cresceram. Algumas pessoas que participaram dessa trajetória já não estão mais aqui. A adorável sede da Ame Campos na Doutor Reid, que abrigou tantas sessões do Cine Garagem, também não existe mais. A cidade também se transformou.
O que permanece é a dedicação de seus idealizadores, como Cervantes Souto Sobrinho e Paulo Gomes, que seguem acreditando no cinema como instrumento de formação, identidade e transformação.
Porque Cinema é Arte. É Cultura. E Cultura é o principal alicerce para a construção da identidade de um povo. E o Cineclube sabe disso como ninguém.
Longa vida, pois, ao Cineclube Araucária de Campos do Jordão, mas também do mundo e, principalmente, do Brasil.
Longa vida a todos os que trabalham pelo cinema — essa generosa moviola geradora de sonhos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário