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sábado, 28 de março de 2026

15 ANOS DO CINECLUBE ARAUÁRIA DE CAMPOS DO JORDÃO, por Benilson Toniolo para o Guia Campos


No ano de 2015, eram necessárias pelo menos quatro pessoas para “descer e subir” a imensa tela de projeção existente no Espaço Cultural Dr. Alem. Antiga, enorme e pesada, feita de um tecido já surrado e manchado, a estrutura era presa por uma espécie de roldana instalada no terceiro andar — e, se mal operada, poderia até causar um acidente. A operação de manusear a tela constituía sempre um momento de atenção e cuidado. Se não precisasse mexer, melhor.

Naquele tempo, o antigo cinema já mantinha uma agenda movimentada de eventos. Palestras, espetáculos de dança, música e teatro, encontros de idosos e outras ações agitavam o espaço, reconhecido como um dos principais polos culturais do município. Construído em 1942 para ser o Cine Glória, o prédio — central e de arquitetura característica da época da inauguração — sempre foi referência histórica e símbolo da identidade local.

O problema era a tela.

A Prefeitura, ainda às voltas com dificuldades financeiras herdadas da gestão anterior, tentava equilibrar as contas e manter os serviços essenciais à população. Não havia recursos, naquele momento, para uma reforma mais ampla do espaço — o que só aconteceria anos depois.
Já o Cineclube Araucária, desde sua fundação, em 26 de março de 2011, utilizava regularmente o local para exibições gratuitas de filmes. As sessões mensais eram prestigiadas por um público pouco numeroso, mas fiel e engajado.

Em 2015, um edital do Governo do Estado voltado ao audiovisual contemplou iniciativas geradas no seio da sociedade civil. Entre os premiados, o Cineclube Araucária, de Campos do Jordão. Com o recurso em mãos, a entidade procurou a Prefeitura e apresentou uma proposta incomum: investir parte do prêmio recebido na melhoria do próprio Espaço Cultural.

Assim foi feito. Graças a essa iniciativa, a antiga tela deu lugar a um equipamento moderno, eletrônico, acionado por controle remoto. Um novo projetor digital também foi adquirido. No andar superior, com assessoria da arquiteta Fabiana Muniz, foram implantados o Memorial do Cine Glória e a Biblioteca de Cinema. O espaço reformado passou a se chamar Complexo Cultural Edmundo Ferreira da Rocha, em homenagem ao célebre historiador jordanense.

Ao longo de quinze anos, o Cineclube Araucária fez muito mais do que “trazer de volta o cinema” à cidade, como dizia seu antigo slogan. Desde 2011, a entidade promove oficinas para crianças, jovens, adultos e idosos, além de exposições, mostras e encontros.

As mostras marcaram época: cinema indiano, chinês, iraniano, japonês, latino-americano, do Leste Europeu, documentários brasileiros, clássicos italianos, animações e sessões infantis — sempre gratuitas e abertas ao público – mais do que movimentaram a agenda cultural: essas iniciativas consolidaram uma presença contínua da sétima arte no coração da histórica Vila Abernéssia.

Ainda em 2015, já com nova estrutura, o Cineclube realizou a primeira edição do Festival Curta Campos do Jordão. De lá para cá, o evento cresceu, ganhou projeção nacional e passou a inserir o nome da cidade no circuito dos festivais cinematográficos brasileiros.

O impacto também se refletiu na produção local. Estimulados pelas oficinas e com acompanhamento e orientação do Cineclube, moradores passaram a produzir seus próprios filmes. Títulos como “Grão”, “Pedro e o Livro”, “Dias de Glória”, “A Redenção de Lúcio” e “Apenas Mais uma Consulta”, entre outros, circularam pelo Espaço Cultural e por festivais em diversas regiões do país.

Em 2017, o projeto “Cinema e Literatura”, em parceria com a Academia Jovem de Letras, incentivou o surgimento de novos autores, com textos transformados em curtas-metragens, e lá estava o Cineclube orientando, ensinando, documentando, informando, gerando, produzindo.

Na décima edição do festival, realizada no ano passado, mais de 600 filmes foram inscritos, vindos de todos os estados brasileiros e também do exterior — de países como Portugal, Argentina, Itália, Cabo Verde e Angola.

Ao longo dos anos, o evento homenageou nomes importantes da cultura brasileira, como Clarice Abujamra, Alaíde Costa, Helena Ignez, Lucélia Santos e Jeferson De. Artistas que fizeram — e seguem fazendo — da arte seu caminho e destinação estiveram em Campos do Jordão para compartilhar experiências e fortalecer vínculos, abraçando colegas e público.

Muita coisa mudou nesse período. O Espaço Cultural foi reformado e modernizado. As políticas públicas de incentivo fortaleceram o festival. Crianças que assistiram às primeiras sessões cresceram. Algumas pessoas que participaram dessa trajetória já não estão mais aqui. A adorável sede da Ame Campos na Doutor Reid, que abrigou tantas sessões do Cine Garagem, também não existe mais. A cidade também se transformou.

O que permanece é a dedicação de seus idealizadores, como Cervantes Souto Sobrinho e Paulo Gomes, que seguem acreditando no cinema como instrumento de formação, identidade e transformação.

Porque Cinema é Arte. É Cultura. E Cultura é o principal alicerce para a construção da identidade de um povo. E o Cineclube sabe disso como ninguém.

Longa vida, pois, ao Cineclube Araucária de Campos do Jordão, mas também do mundo e, principalmente, do Brasil.

Longa vida a todos os que trabalham pelo cinema — essa generosa moviola geradora de sonhos.

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